Baú da Dynamite: A Surf Music

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Cowabunga! Novas bandas fortalecem a surf music nacional
By Marcos Bragatto

Na década passada, a inclusão de um clássico da surf music na trilha sonora do filme “Pulp Fiction” foi a senha para que uma nova cena surf surgisse dentro no underground americano. Logo a febre se espalhou pelo mundo e novas bandas começaram a pipocar nos lugares mais inesperados. No Brasil apareciam no mercado apenas duas bandas, Os Ostras, que fazia um interessante crossover surf/pop, e a banda gaúcha Of The Wall, que flertava com bandas como Wishbon Ash e com outras do rock australiano. Demorou, mas hoje já se identifica uma certa cena de surf music no Brasil.
As bandas estão espalhadas pelo país, indo de Salvador a Santa Catarina, passando por cidades que nem são banhadas pelo litoral, como Belo Horizonte. Apesar do estilo ter sido criado com forte identificação com a cultura de praia, na costa oeste americana, hoje o gênero não tem necessariamente vínculo com o surf enquanto esporte. Tanto que a capital mineira sedia uma associação que reúne cerca de 15 bandas, a Reverb Brasil (surf.to/reverb).
Antes mesmo do aparecimento d’Os Ostras, outra banda de São Paulo já estava na ativa. O Gasolines foi formado em 1993 quando o guitarrista Alexandre Kanashiro voltou de uma viagem aos Estados Unidos e resolveu montar uma banda de surf music. “Estávamos um dia na praia e queríamos um nome que lembrasse Vaselines (N.E.: banda escocesa que tinha Kurt Cobain como fã), e aí surgiu The Gasolines”, explica o percursionista Gustavo Barreto, desfazendo qualquer semelhança do nome com a hot hod music, vertente da surf music na qual os carrões envenenados entravam no lugar dos pranchões. Com o quarto disco já no forno, o Gasolines conta ainda com Fabio Barbosa, bateria, e César Vaz, baixo.
Quem conseguiu chegar às rádios foi o Autoramas, que tem dois discos distribuídos pela Universal. Ok, o Autoramas não chega a ser totalmente uma banda do gênero, mas a influência da surf music é evidente, sobretudo em músicas como “Catchy Chorus” e “Bahamas”. Gabriel Thomaz, o líder e idealizador do grupo, é aficionado pela música garageira dos anos 50 e 60, e também participa da lista Reverb Brasil. Para Gabriel, “é preciso que as bandas novas acrescentem algo na música, senão vira uma simples cópia do que se fazia antes”.
É de Gabriel a produção do disco de estréia do Go! criado no início de 2000, no Rio, por Voodoo, baixo, Kid Cane, bateria, e DiMonstro, guitarra. As músicas do Go! são inspiradas em “temas” de vídeo games, aqueles barulhinhos que rolam durante o jogo. Na verdade, o Go! resgata uma outra característica da surf music de raiz, que é fazer versões “surf” para clássicos de outros gêneros musicais ou de trilhas. “Miserlou”, música que abre o filme “Pulp Fiction”, por exemplo, é uma versão de uma canção tradicional grega. Henry Mancini, compositor de trilhas sonoras para Hollywood na década de 60, já chegou a receber um disco tributo, só com seus temas em versão “surf”, feitas por mais de 20 bandas.
Quem também flerta com esse caminho das versões “surf” é o grupo mineiro que tem o sugestivo nome thesurfmotherfuckers, “assim mesmo, sem espaço e sem maiúsculas”, alerta o baixista Pedro Araújo. Formado em 1996, o grupo conta ainda com Alemar Rena, bateria, André “Punk” Paoliello, efeitos eletrônicos, e Daniel Todeschira e Fernando Americano, guitarras. “Solano Star”, o único lançamento da banda mineira, traz três versões que se destacam entre as dez músicas: “Kiling An Arab” (The Cure), “Let’s Lynch The Landlord” (Dead Kennedys) e “Private Idaho” (The B’52’s). “É mais uma questão de gostar de certa música e achar que fica legal tocá-la do nosso jeito. Não é algo do tipo ‘temos que seguir com a tradição das versões surf de músicas X ou Y’”, explica Pedro.
Quem flerta bem com a tal da surf music do espaço criada na década de 90, até pelo nome, é o grupo baiano Retrofoguetes. Embora composta por músicos que tocam juntos há muito tempo, a banda só se formou há cerca de um ano, no dia em que o vocalista Moskabilly saiu do Dead Billies, consagrada banda psycho baiana. Os remanescentes Rex, bateria, Morotó, guitarra, e CH (que substituiu Joe), baixo, decidiram deixar fluir a veia surf que eles enrustiam há anos. “A surf music era marcante no som da gente e sempre tocávamos alguns temas instrumentais. Não sabíamos como o público reagiria, mas percebemos que a gente continua tendo o mesmo feedback, e além disso, é menos um pra dividir o cachê”, afirma Rex.
Voltando a Belo Horizonte, temos o Estrume’n’tal, que além do batera Claudão conta ainda com Gui e Lino, guitarras, e Fredão, baixo. O grupo também nasceu de outra lenda do underground nacional, Os Meldas, grupo conhecido na cidade nos anos 90. “Toda vez que os vocalistas estavam no bar bebendo a gente continuava no estúdio tocando ‘melda music’, que apelidamos de ‘estrume’. Daí a idéia de colocar esse nome, que tem a ver com rock’n’roll e soa como instrumental”, conta Claudão.
Quem aposta na surf music como um todo é o carioca Netunos, formado por Tito, baixo, Cid, bateria, JP, guitarra solo e vocais, e Carlão, voz e guitarra base. Diferentemente das outras bandas, o Netunos também compõe músicas com letras. Na verdade, o quarteto faz um trabalho voltado para o pop/rock, onde a surf music dos Beach Boys é a principal referência. “Associa-se muito a surf music a coisa instrumental, e não é assim. Temos músicas instrumentais e com letra, porque algumas ‘pedem’ letra, e em outras achamos melhor deixar só a melodia”, defende Carlão, com propriedade.
De Santa Catarina, o Ambervisions mistura várias vertentes da música pop, como punk, e surf music tradicional, com muito bom humor. Integram a banda atualmente o band líder Zimmer, que costuma se apresentar de peruca e óculos escuros, e ainda toca maracas, Amexa, guitarra, Arioli, baixo, e Cris, bateria. A banda já tem um álbum lançado, “Cada Dia Mais a Mesma Coisa”, numa parceria entre os selos Migué, de Santa Catarina, e Monstro, de Goiânia.
O Orestes Prezza, da cidade de Campinas, inova já na formação: Carlão, baixo, Reginaldo e Melinha, guitarras, Stênio, bateria, Paschoal, teclado e maracas, Naka, percussão, e Pereira, trombone. Esses sete integrantes fazem do grupo uma espécie de orquestra surf, temperada com uma percussão e metais de fazer inveja a Brian Setzer. “Consideramos um diferencial a presença do instrumento de sopro, ele tanto preenche um fundo para criar um clima, como pode destacar determinado momento”, orgulha-se o baixista Carlão. Com um único CD demo lançado, “Trombones, Maracas e Duas Guitarras Fumegantes”, com 12 músicas, o Orestes recebeu elogios até de Phil Dirty, o papa da surf music mundial.

(O texto completo desta matéria você pode ler na versão impressa da Revista Dynamite 92, em abril de 2003)

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