Baú da Dynamite: Los Hermanos

Confira também esta matéria em áudio!
Los Hermanos – Banda de “Anna Júlia” cansava do rock e assumia de vez a MPB
By Marcos Bragatto

Então tá confirmado. O Los Hermanos não é mais uma banda de rock. Com o lançamento de “Ventura” o grupo carioca desempatou a partida a favor da linha de canções de mpb e samba já sugerida no elogiado e encalhado “Bloco do Eu Sozinho”. Encalhado porque, segundo consta, vendeu cerca de dez vezes menos que o álbum de estréia, que continha o mega hit “Anna Júlia”.

A banda foi um dos sete artistas, dentre os 72 que a Abril desempregou, aproveitados pela BMG, que fechou contrato antes mesmo de ouvir o material que estava sendo preparado num sítio em Petrópolis. Dessa vez não aconteceu a rejeição por parte dos patrões, como no caso de “Bloco do Eu Sozinho”, quando a gravadora queria que o trabalho fosse refeito, e, dada à recusa, não trabalhou na promoção daquele álbum.

Seguindo a mesma linha, “Ventura”, com o apoio da gravadora, vai esclarecer se “Bloco do Eu Sozinho” vendeu pouco porque foi mal trabalhado ou se é mesmo um trabalho ruim. O disco não contém uma “nova Anna Júlia” e mostra uma banda que admite ser outra em relação ao álbum de estréia e estar cansada de tocar as músicas hardcore daquela época. Pelo menos foi isso que Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante (voz e guitarra), Bruno Medina (teclados) e Rodrigo Barba (bateria).

Dynamite: No disco anterior a gravadora não queria aceitar o material gravado. E agora, como foi?
Marcelo Camelo:
Foi liberdade total, porque que nós conquistamos alguma coisa por ter feito o “Bloco”, que foi um disco de êxito mesmo não tendo vendido tanto, porque foi muito elogiado.

Dyna: O segundo disco vendeu bem menos que o primeiro e esse terceiro se parece mais com o segundo. É o caminho que vocês escolheram?
Camelo:
Cada música é trabalhada individualmente. No final das contas todas elas têm uma coerência entre si, porque cada uma delas foi feita com uma parcela de sinceridade. Não existe uma tentativa de soar mais como o “Bloco” ou como o primeiro disco.
Rodrigo Amarante: O “Bloco” foi o primeiro disco que nós fizemos pensando em fazer um disco. O primeiro nós gravamos as músicas que tocávamos no underground.

Dyna: Vocês concordam que esse disco tá mais parecido com o segundo do que com o primeiro?
Amarante:
O que é natural, porque está dentro de uma cronologia.

Dyna: Mas há duas demandas de fãs: uma que queria essa seqüência que você falou e outra que tinha a esperança de voltar as coisas mais rápidas do primeiro disco…
Amarante:
A mudança do primeiro para o “Bloco” foi muito grande. Primeiro por causa da turnê do primeiro disco ter durado dois anos, nos quais nós nos conhecemos a fundo.

Dyna: Vocês acabaram enchendo o saco do repertório do primeiro disco?
Camelo:
O hardcore para ser tocado diariamente demanda uma força física que repetidas vezes torna aquele exercício meio chato. O arranjo que joga mais pra canção é um negócio que permite que nós toquemos mais vezes sem encher tanto o saco.
Amarante: Nós nunca fomos fãs de hardcore. Sempre ouvimos vários tipos de música, mas fazíamos a nossa música no começo com muito de hardcore.

Dyna: Será que não foi só uma forma de dar início numa carreira musical?
Bruno:
A banda surgiu num momento em que o Marcelo estava inserido no contexto underground. Ele freqüentava a cena rock, e a ideia de ter a banda foi por conta dos shows que ele assistia e da necessidade de fazer uma adaptação para aquele som que eles estavam curtindo. Mas aí entramos eu, o Rodrigo e o Barba, e a coisa mudou.

Dyna: Vocês tiveram medo de ser considerados uma banda de um hit só?
Bruno:
Por um momento nós fomos e ainda somos, para algumas pessoas.
Amarante: Tem muita gente que nunca ouviu falar do “Bloco”, que não tocou em rádio porque a gravadora não “compareceu”.
Bruno: A Abril não trabalhou o disco, mas agora eu acho que nós já temos um chão, até pela cobertura da imprensa.

Dyna: O jabá incomoda vocês? Tem como escapar disso?
Camelo:
O Gil quer criar uma lei que criminalize o jabá, e o Lobão considera que a lei que regulariza o pagamento de direito autoral é uma lei federal, então ao pagar o jabá você interfere na arrecadação de um negócio que é calcado numa lei federal, e é um crime federal.
Bruno: As pessoas pensam muito em dinheiro, mas existem outras formas de jabá. Por exemplo, o cara mandar fazer um show para a música tocar. Eu faço um show e ele leva a bilheteria, em troca de a música tocar na rádio dele.

Dyna: Vocês podem chegar na gravadora e dizer que não querem que paguem jabá para vocês?
Amarante:
Eles vão dizer: “claro, podem ir embora”. Porque não tem sentido.
Bruno: Esse assunto é meio obscuro. Às vezes falarmos isso parece ser uma coisa conivente da nossa parte, mas eu acho que a classe artística devia se movimentar mais.
Amarante: O jabá vai contra a regulamentação da concessão de rádio. A democratização da cultura, que é uma bandeira forte desse governo novo, vai de encontro à institucionalização do jabá.

(O texto completo desta matéria você pode ler na versão impressa da Revista Dynamite nº 64)

46840cookie-checkBaú da Dynamite: Los Hermanos
Adicionar aos favoritos o Link permanente.
0 0 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments