Baú da Dynamite: Marcelo Nova

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Histórias e lições de um Velho Roqueiro
By Humberto Finatti

A nova geração que curte o pop/rock atualmente produzido no Brasil talvez já não conheça mais seu trabalho, que teve o auge do sucesso na década de 80. Mas Marcelo Nova, ex-vocalista do Camisa de Vênus continua na ativa. Com mais uma coletânea lançada e prometendo um álbum de inéditas para esse ano, Nova é uma enciclopédia da história do rock brasileiro.
O velho homem que está nesta estrada há mais de duas décadas, conheceu a fama e o auge do sucesso já há muito tempo mas que não se importa mais com isso. Ele continua aí, fazendo seu trabalho por amor ao rock’n’roll.
Marcelo Nova continua a possuir opiniões fortes quando o assunto é música, rock e cultura em geral. E possui uma gama, um caleidoscópio, um baú recheado de histórias e vivências como poucos artistas no Brasil possuem. Basta ler a entrevista que se segue para confirmar isso.

Dynamite: Você não lança um álbum com material inédito há cerca de sete anos. Não é muito tempo para ficar sem mostrar algo de novo?
Marcelo Nova:
A coletânea “Grampeado em Público” foi lançada a contra-gosto. Em 2001 veio a “Tijolo na Vidraça”, um CD triplo que surgiu através de um convite feito pelo diretor da Som Livre. Foi um compêndio onde eu pude cantar coisas de que eu gostava, desde Bob Dylan até covers de Led Zeppelin e The Doors, além de canções que não haviam sido aproveitadas. Pena que foi um produto inacessível, financeiramente falando, ao grande público. Nesse ano eu vou lançar um álbum com material inédito. Tenho material para lançar dois discos.

Dyna: Há tanto material novo assim?
Nova:
Isso é a única coisa que eu me proponho a fazer na vida. Então, tenho que fazer bem feito. Hoje eu considero que escrevo melhor do que há alguns anos, fui trabalhando meu ofício de compositor como um carpinteiro.

Dyna: Vai bem o rock brasileiro?
Nova:
Temos essa deficiência cultural, que é de termos gosto pelo efêmero. Isso leva a um esvaziamento artístico. A ênfase hoje é para artistas que não possuem arte nenhuma. Essa geração mais nova mistura tudo: rock com funk, dance, reggae, rap. Aí eu não gosto. Eu gosto de rock’n’roll, que é o que eu ouço na minha casa. O novo pelo novo não tem nenhum significado. Esse culto ao novo que está aí é o grande responsável pela celebração da mediocridade.

Dyna: Mas nada se salva na sua opinião? Não há algo ou algum nome lançado recentemente de que você tenha gostado?
Nova:
90% do que se faz aqui e lá fora é porcaria. A diferença é o aspecto cultural. Eu assisti a um show do Neil Young em Los Angeles, onde estavam, juntos na platéia, pai, filho e avô. Aqui, isso não acontece. Nós estamos cercados pela bola da vez, eternamente em busca da bola da vez.

Dyna: Ou seja: você não acompanha mesmo nenhuma possível boa novidade…
Nova:
Eventualmente eu vejo alguma banda nova que esteja abrindo para alguém em algum show. E eu fico torcendo para que surja um fedelho que dê um chute no saco do Gugu Liberato. Ou que me faça acreditar que tudo o que tem acontecido na música não passa de corporativismo industrial.

Dyna: Qual é a parcela de culpa da mídia eletrônica, como a MTV por exemplo?
Nova:
Eu vi o Kurt Cobain dando um escarro fenomenal na lente da MTV (N.E.: na verdade Kurt escarrou na lente da câmera da TV Globo, durante o festival Hollywood Rock, em 1993). E isso foi congelado e se transformou em logotipo da MTV!

Dyna: Sua filha, a VJ Penélope, trabalha lá…
Nova:
Ela faz muito bem o que se propõe a fazer. Ela é arrogante como o pai, fala tanto quanto ele, mas é mais simpática.

Dyna: Se há crise de criatividade e de novos bons talentos, talvez não seja porque há uma crise de mercado? Além disso, a pirataria está dizimando a indústria do disco.
Nova:
A pirataria não se resume ao camelô. Na medida em que se continua privilegiando a bola da vez, em detrimento de artistas que precisam de investimento a médio e longo prazo, não se cria público. As gravadoras, do seu lado, têm que pagar jabá para as rádios para que elas promovam a “bola da vez”.

Dyna: E a veiculação de música pela Internet, você aprova ou considera pirataria?
Nova:
Talvez prejudique a vendagem de discos. Por outro lado, me aproximou de milhares de pessoas que compram meus discos, camisetas, sabem onde eu vou tocar etc. Eu não gosto muito de computador, nem sei passar e-mails.

Dyna: Do que você gosta, afinal?
Nova:
Eu gosto de Wander Wildner, Nasi (Ira!) e do Clemente (Inocentes) que, agora que está ficando velho.

Dyna: E do rock lá de fora?
Nova:
90% do que se faz lá fora é merda. Como o cara pode ouvir Oasis, Blur? Quem não dorme ouvindo Radiohead? Strokes pelo menos possui uma levada rock’n’roll. Também gosto do Mooney Suzuki e do Pearl Jam.

Dyna: O que você tem a dizer de sua coleção particular?
Nova:
Devo ter uns dez mil discos, entre CDs e vinil. E é uma coleção de rock’n’roll. Tenho um pouco de clássicos, jazz, mpb, Jards Macalé, Walter Franco. Eu me sinto um cara privilegiado, porque consegui transformar meu hobby em profissão.

(O texto completo desta matéria você pode ler na versão impressa da Revista Dynamite nº 63)

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