Baú da Dynamite: Mustang

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Mustang – Do metal ao motor
By Marcio Baraldi – Foto: Marcos Bragatto

Depois que resolveu por um fim da lendária Dorsal Atlântica (banda que entre outras façanhas, influenciou o Sepultura), em 2000 Carlos Lopes deu uma guinada de 180 graus em sua carreira artística. Ele já vinha trabalhando num novo projeto, a Usina Le Blond, banda voltada para o suingue, mas com guitarras, e que lançou dois discos, “Usina 415” (2000) e “Usina Le Blond” (2002). Mais foi nesse ano que nasceu o trio garageiro Mustang, apostando firme num som inspirado na barulheira de MC5 e cia. e na nova geração que vem aparecendo de uns tempos para cá. Além disso, Carlos escreveu dois livros: “Guerrilha!”, a biografia oficial da Dorsal Atlântica, e “Os Argonautas”, sobre sua experiência mística e exotérica. Atualmente, ainda atua como produtor e jornalista musical, além de dar aulas de guitarra.

Com o Mustang, que conta ainda com Américo Mortágua (bateria) e André Pinheiro (baixo), foram dois discos: “Rock’n’roll Junkfood” (2001), e agora “Oxymoro”. Inquieto, ao invés dos riffs metálicos de outrora, Carlos prefere rodar em novas paragens musicais, sempre guiado pela sua hiperatividade e pelo inesgotável amor pelo rock’n’roll. Com vocês, a lenda viva Carlos Lopes. Acelera, Carlão!

Dynamite: Nos anos 80 você foi um músico de vanguarda, um dos primeiros a fazer metal no Brasil. Agora você faz um som voltado para os anos 70. Por que a mudança?
Carlos Lopes:
Hoje sou mais vanguarda que antes. Pense no que é abrir mão de uma carreira estabelecida para mergulhar no underground e fazer um som que nenhum dos fãs que foram arregimentados durante décadas possa entender. O Mustang é uma banda do século 21. Se o que toco hoje parece ou é inspirado numa estética antiga, é porque quase nada do mundo atual me estimula. Das composições até a arte, tudo no Mustang é desapegado da estética dominante, trazendo mágicas mensagens subliminares.

Dyna: No Mustang você mistura “Che” Guevara com psicodelismo, MC5 com Mutantes. O Mustang seria o ápice de sua liberdade criativa?
Carlos:
O Mustang e a Usina Le Blond surgiram mais como “passatempos” para me livrar de estresses e cobranças, do que para ser um projeto refletido. Com o desenvolvimento de ambas, acabaram tornando-se os “remédios” para a minha saúde mental, espiritual e musical. No encarte pode-se detectar parte das referências, através das fotos do Mutantes e Secos & Molhados. O “Che” Guevara, que aparece na contracapa, tá com batom, a favor da causa gay. Quem melhor poderia transmitir uma mensagem de tolerância, do que aquele que “não perde a ternura jamais”? E Mutantes, Molhados, MC5 e Mustang possuem a letra M.

Dyna: Agora você parece estar mais despreocupado, cantando sobre coisas triviais, como a falta de grana e o amor. Esses temas refletem seu atual estado de espírito?
Carlos:
Falo de tudo: vida extraterrestre, hipocrisia religiosa, mas principalmente sobre o amor. E o que é mais importante que o amor? Escolhi o amor como tema principal porque é esse sentimento que me dá força para me manter vivo.

Dyna: Você ainda vai manter a Usina Le Blond, ou o Mustang é sua prioridade?
Carlos:
O Mustang e a Usina Le Blond são lados da mesma moeda. Se pudesse daria um show por noite com cada uma delas. Quem respeita o artista Carlos Lopes aceita todos os meus novos trabalhos como parte de um todo, extensões da personalidade e da minha arte. O Mustang é da ala do rock, daquele mesmo que eu escutava quando tinha 16 anos. A Usina era o som que eu ouvia por tabela, vindo das rádios (James Brown) e da vitrola dos meus pais (Simonal, Jorge Ben, Roberto Carlos).

Dyna: Que evolução você acha que houve entre o disco de estréia e o “Oxymoro”?
Carlos:
O primeiro era mais ligado ao “eu” antigo. No “Oxymoro” a vontade de ousar foi maior, e eu apenas segui meus instintos. Quando me dei conta, a temática do CD era praticamente homossexual, seja combatendo, a favor, tirando sarro, seja respeitando, e isso não aconteceu de forma planejada.

Dyna: Você disse que hoje faz as coisas movido por amor. E antes, você era movido a que?
Carlos:
Quando falo em amor hoje, me refiro a amar a vida. Antes amava meu som, os discos que eu gravava, os amigos. Focar o objetivo, a meta, decidir qual era a verdadeira prioridade era confuso. Hoje amo a vida, ser quem sou, fazer o que faço, mas priorizo primeiro a felicidade espiritual, o desapego em relação as coisas do mundo. Posso garantir que tudo flui melhor hoje porque decidi ser feliz, de fato. Abri mão de falsas seguranças para me jogar no precipício da paixão. E que mal o amor pode trazer?

(O texto completo desta matéria você pode ler na versão impressa da Revista Dynamite nº 80)

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