Baú da Dynamite: Nação Zumbi

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A “Nação” que vale quanto pesa – (ou toca!)
By Humberto Finatti

O maracatu deles pesa/vale uma tonelada. Uma tonelada de canções geniais, de grandes composições que formataram uma obra intensa e brilhante. Uma obra que acabou por criar uma das últimas grandes revoluções da música brasileira, o mangue beat. Um trabalho respeitado tanto aqui como no exterior, onde o septeto pernambucano Nação Zumbi já excursionou várias vezes. O mesmo Nação Zumbi que lançou, no final do ano passado, seu quinto e homônimo álbum, espécie de divisor de águas na trajetória do grupo. Afinal, após perder de maneira trágica seu saudoso líder, mentor e fundador Chico Science, a banda sentiu a ausência de Chico. Gravou dois bons álbuns (“CSNZ”, um CD duplo com faixas inéditas, out takes e remixes para canções já lançadas nos primeiros discos, e “Rádio S.a.m.b.A”) que, no entanto, deixaram a incômoda sensação de que o grupo ainda buscava sua identidade.

Esta identidade surgiu plena, forte e intensa no último rebento. “Nação Zumbi”, o disco, trazia um compêndio das estruturas e referências textuais/musicais que celebrizaram a banda: letras surreais, percussões conectadas a um só tempo ao tribalismo acústico e regional nordestino e aos loops da música eletrônica, além da psicodelia pesada das guitarras e do vocal personalíssimo do cantor e letrista Jorge Du Peixe. E tudo isso com cara própria. “Realmente mudou muita coisa”, admite o sempre simpático guitarrista Lúcio, em entrevista por telefone à Dynamite. “Nós crescemos, amadurecemos. Hoje, temos a preocupação de deixar a música boa. A identidade disso é perceptível pois houve uma mudança, uma evolução. Na banda todos têm sua participação na hora de compor e da fazer os arranjos”, esclarece.

(SUB) CULTURA DO IMEDIATISMO
O grupo lutou arduamente para se impor, adquirir respeito pelo seu trabalho e chegar aonde chegou. Uma luta na maioria das vezes inglória em um país com uma tradição musical tão rica como o Brasil, mas onde, infelizmente, o poder econômico da indústria cultural fala mais alto. E este poder quase que inexoravelmente prefere privilegiar o produto fácil, descartável e de baixa qualidade, empurrado aos consumidores via exposição maciça na mídia eletrônica. Esta exposição é conseguida através de métodos não muito éticos, mas que, também começam a ser rechaçados pelo público. “Existe muita coisa boa na música brasileira, mas ela está longe da grande mídia”, avalia Lúcio. “Muitas gravadoras não estão mais pagando jabá e grandes redes de rádio estão falindo, porque devem fortunas para o Ecad”, diz o guitarrista. Como efeito dessa operação de “purificação” do mercado e mesmo com a pirataria também aniquilando boa parte do mainstream da indústria fonográfica, Maia acredita que a situação começa a melhorar. “Temos que correr por fora para não ficar na espera de que alguma coisa aconteça. Tivemos momentos de não ter absolutamente nada na mão e não nos deixamos abater por essa situação. A pirataria é uma questão social: está enchendo a barriga de muita família que estava com fome. É um problema que ainda vai demorar muito tempo para ser resolvido, daí o que acontece? O mercado está completamente quebrado, não existe mais ‘major’ no Brasil”.

Ainda segundo o guitarrista, criou-se no País aquilo que ele define como “cultura do imediatismo”. “Na época em que estávamos na Sony, não conseguíamos lançar nossos discos em outros países porque a Sony contrata os grupos sempre com aquela visão de que eles precisam faturar muita grana para a gravadora. A Trama (atual gravadora do Nação Zumbi), ao menos, tem um projeto para a banda, quer vender nossos discos lá fora”, conta ele. Um projeto, afinal, que anima a banda a traçar planos futuros com mais entusiasmo. “Já temos uma turnê agendada para a Europa lá pelo meio do ano, pois o álbum foi lançado na Inglaterra, na Alemanha, França, Espanha e em mais alguns outros países. E a vendagem do disco está indo muito bem”, informa Lúcio, com animação.

NÃO AO SOULFLY

Turnês pelo exterior não é problema para o guitarrista. Ele só não pretende, em hipótese alguma, deixar a família e o Brasil para morar fora. Como quase aconteceu quando Maia gravou as guitarras do álbum de estréia do Soulfly, a banda que Max Cavalera montou após deixar o Sepultura. “Eu recebi o convite para gravar as guitarras do disco, mas depois o Max queria que eu me fixasse no grupo. E para que isso acontecesse eu teria que me mudar pra lá. Então, o fato de ter família pesou muito. E eu gosto de metal mas não o suficiente para que minha vida gire em torno desse tipo de música”, diz Lúcio.

A entrevista vai chegando ao fim e o repórter não deixa de lembrar ao guitarrista de que o Nação Zumbi estava, mais uma vez, concorrendo ao Prêmio Dynamite de Música Independente na época, na categoria melhor álbum de mpb. “É uma grande recompensa isso”, diz Lúcio. “O resto, a grana, vem por consequência”.

(O texto completo desta matéria você pode ler na versão impressa da Revista Dynamite nº 63)

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