Baú da Dynamite: Nervoso

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Baterista vem para frente do palco em carreira solo
By Marcos Bragatto

Como jornalista, ele assinava André Paixão. Como baterista, fez fama como André Nervoso, apelido que ganhou quando pegava onda. Agora, como compositor, guitarrista e intérprete, basta lhe chamar de Nervoso. Durante anos, fez parte das bandas mais legais, mas sempre quando uma delas ameaçava crescer, ou ele pulava fora ou a banda acabava. Foi assim com o Beach Lizards, Acabou La Tequila e Autoramas. Em todo esse tempo ele apresentava músicas de autoria própria aos companheiros de banda, que por uma ou outra razão, não “funcionavam”. Mas ele tinha certeza que eram boas canções.

Pressionado por si próprio, depois e ter gravado o primeiro álbum do Matanza, Nervoso resolveu tirar a prova dos nove e ver se suas músicas “funcionavam” com ele. Em 2003, bancou a gravação do EP/demo “Personalidade”, que distribuiu para conhecidos e formadores de opinião. Setecentas cópias e alguns shows depois ele tinha certeza que a coisa já tinha começado a dar certo. Em 2004 foi indicado para o Prêmio Dynamite na categoria Revelação, formou uma banda e gravou o ótimo “Saudades das Minhas Lembranças”. O disco traz uma mistura de música brasileira com sonoridade da jovem guarda e um flerte com o tal rock gaúcho e ainda com a nova mpb de Los Hermanos. Confira agora o que tem a dizer esta revelação do rock nacional:

Dynamite: Como você decidiu mudar de instrumento e se lançar como artista solo?
André Nervoso:
Eu sempre compus, tinha músicas engavetadas, mas não divulgava. Sempre que eu apresentava as músicas, no Acabou La Tequila, no Matanza, até no Autoramas, elas não funcionavam na voz de outra pessoa. Isso começou a formar um “câncer” dentro de mim, que “estourou” na época em que o Matanza tinha lançado o primeiro disco. Eu estava sendo desonesto com os caras e comigo, tocando bateria pensando em outra coisa, com minhas músicas engavetadas.

Dyna: Desde quando você compõe?
Nervoso:
Desde o Beach Lizards. Mas o Acabou La Tequila foi a banda que me trouxe muita riqueza musical. Eu era limitado aos sons europeus. De som brasileiro eu gostava de Roberto Carlos. O Kassin (guitarrista e produtor) me dava umas injeções de música. Desde moleque eu ouvia rock’n’roll, comecei com 10 anos. O irmão mais velho do meu melhor amigo era DJ, tinha uma porrada de vinil. Eu ouvia aqueles sons, The Police, The Who, Rush, ficava vidrado. Quando fui no meu primeiro show de rock, do Dorsal Atlântica, em 84, e vi o Carlos Punk (depois Vândalo, depois Lopes) voando na galera, solando a guitarra que nem um louco, eu disse: “que coisa linda, esse cara é um deus!”.

Dyna: Como você reuniu a banda?
Nervoso:
Não tinha banda, eu fui imaginando os arranjos e gravei as músicas aos poucos, com o Marcelo, baterista do Carne de Segunda. Eu toquei o resto dos instrumentos, teclado, baixo, fiz os arranjos, só não toquei bateria. Aí eu formatei o EP, fiz uma capa legal e divulguei. Começou a rolar um feedback legal, todo mundo elogiando, o Kassin, o pessoal do Los Hermanos, gente da imprensa. Aí eu comecei a montar a banda. O Robério (baterista) foi do Anarchy Solid Sound. O baixista é o Kiko, que toca com o Arnaldo Brandão. Eles têm um histórico mais rock’n’roll. Quem tem uma noção de som brasileiro é o pessoal do Carne de Segunda, o Bruninho e o Benjão, que se revezam na guitarra.

Dyna: As letras são fruto das suas relações ou é ficção?
Nervoso:
Tem muito muita experiência pelas quais eu já passei, mas eu dou uma fantasiada. Tem influência de Roberto Carlos, esse clima das relações pessoais, não só as amorosas.

Dyna: Não te incomoda quando você vê que depois de você ter saído, as bandas deram uma crescida?
Nervoso:
Não, a tendência é a banda crescer. As bandas em que eu toquei são o que há de melhor: Autoramas, Matanza… Eu sempre tive muita preocupação com o palco, banda no palco tem que ter uma postura muito boa. Até nas músicas mais leves eu tento passar uma energia no palco. Mas tem o meu rock, Tom Waits, Nelson Gonçalves, Roberto Carlos…

Dyna: Você chegou a enviar a demo para as gravadoras?
Nervoso:
Ter uma gravadora seria ótimo, mas eu já vi muita história de banda engavetada. Com o Tequila já aconteceu isso, e compromete o trabalho artístico, desenvolvido com o maior carinho, por conta de jogadas executivas e comerciais, uma coisa que não tem nada a ver com arte. Se pintar um convite, ótimo, porque eu tenho vontade de fazer uma produção foda.

Dyna: Quando você tocava no Acabou La Tequila imaginava que cada um ia ter uma banda?
Nervoso:
O Tequila é uma banda muito louca. Eu entrei quando o Bacalhau foi para o Planet Hemp, e não apitava muito, depois é que comecei a me envolver artisticamente. Eu sempre senti que cada um tinha uma personalidade muito forte e isso poderia acontecer. O Tequila ainda existe, só não virou o projeto das nossas vidas.

(a íntegra desta entrevista você lê na versão impressa da Revista Dynamite 80)

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