Baú da Dynamite: Picassos Falsos

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Picassos Falsos – Partindo de onde havia parado.
By Tatiana Tavares

Que ninguém se engane. A volta do Picassos Falsos nada tem a ver com o “revival” interminável dos anos 80 e da geração responsável pelo surgimento do rock genuinamente brasileiro. Lançando “Novo Mundo”, eles estão de volta, sim, depois de 11 anos de separação, mas o clima não é de nostalgia, e sim, de novidade.

Com apenas dois discos lançados, “Picassos Falsos” (87) e “Supercarioca” (88), o quarteto carioca teve seu fim precoce no início dos anos 90, deixando para trás um trabalho rico em misturas de ritmos e poesia. Eles já misturavam samba, bossa nova e baião ao peso das guitarras ainda na década de 80, muito antes de bandas como Nação Zumbi, Raimundos ou O Rappa aparecerem. Na época, não receberam a devida atenção da mídia ou do grande público, mas foram sucesso no underground carioca, e chegaram até a garantir espaço em algumas rádios. Como escreveu o jornalista e produtor do álbum de estréia da banda, José Emílio Rondeau, “Picassos Falsos não teriam existido sem Gilberto Gil e Los Hermanos não teriam existido sem Picassos Falsos”.

A volta, que começou a tomar forma com alguns shows em 2001, tem como objetivo continuar o trabalho do ponto em que ele foi interrompido, e traz a banda com a mesma formação de então: Humberto Effe (voz e violão), Gustavo Corsi (guitarra), Romanholli (baixo) e Abílio Rodrigues (bateria). Para contar um pouco mais dessa história, a Dynamite entrevistou Humberto Effe, principal compositor do grupo.

Dynamite: Diferentemente do que aconteceu com outros grupos dos anos 80 que voltaram, vocês não trouxeram um clima de nostalgia no disco. Isso foi proposital?
Humberto Effe:
De uma certa forma, sim. Não que tenhamos programado detalhadamente, mas foi bom que tenha sido assim. Desde quando começamos a pensar em voltar, queríamos fazer um trabalho totalmente novo. Um disco, quando é lançado, na verdade, já vem sendo trabalhado há tempos, e, às vezes, quando chega às lojas, nem corresponde mais ao que a banda está fazendo naquele momento. Com este álbum foi assim. Eu tinha muita coisa pronta e fui acumulando um repertório durante estes onze anos em que estivemos separados. Compus para algumas pessoas, mas muita coisa ainda estava inédita. Era realmente uma continuação do trabalho anterior, músicas que caberiam bem naquele disco. Acho que o lado forte que havia nas canções do “Supercarioca” se pulverizou e se cristalizou nessas músicas novas, com o passar do tempo e com o amadurecimento de todos.

Dyna: Vocês foram um dos pioneiros a fazer essas misturas que hoje são tão comuns na música pop brasileira: samba com guitarra, baião, etc. No entanto, naquela época não se deu o devido valor. Como vocês se sentem hoje em relação a isso?
Humberto:
É sempre chato fazer um trabalho e não ter seu valor reconhecido como se gostaria. Naquela época, pouca gente fazia o que nós fazíamos e acho que a memória das pessoas em relação à banda vem justamente daí. Foi essa diferença que nos fez voltar, para dar continuidade a um trabalho que foi interrompido. Para nós, é natural compor um samba. Sempre fizemos isso e não temos porque deixar de fazer. Só não queríamos soar nostálgicos, mas não ficamos cheios de regras do tipo “isso podemos fazer, aquilo não”. Bandas como Skank e Chico Science sempre citavam os Picassos como referência. Acho que ajudamos a dar início a um movimento de resgate dessa cultura brasileira. A geração oitenta trouxe o rock para o Brasil. O rock influenciado pelo punk e pelo que estava acontecendo lá fora. A maior parte das bandas negava tudo o que já havia sido feito antes pela bossa nova, pelo tropicalismo. Então, em meados dos anos 80, os Paralamas começaram aos poucos a voltar a assimilar elementos brasileiros à música pop, produzindo um rock mais nacional. Foi aí que nós aparecemos, misturando influências e fazendo o que quase ninguém queria fazer.

Dyna: Essa volta é para valer ou apenas um projeto para “terminar o que foi interrompido”?
Humberto:
Queremos lançar mais discos. Até já estamos com idéias, e vamos colocá-las em prática no estúdio. Mas antes disso, há um projeto paralelo que talvez dê frutos. É o “Hipercarioca”, um disco de samba, não autoral, em que queremos resgatar a canção carioca. Já levamos isso para o palco e o resultado foi bem legal. Cantamos Paulo da Portela, Noel Rosa…

Dyna: Você parece estar hoje mais ligado ao samba do que ao rock.
Humberto:
Sempre tive essa promiscuidade musical latente. É que o samba está num momento muito bom. Mas tenho ouvido rock também. O Radiohead é maravilhoso, para mim eles são os Beatles dos anos 90. O White Stripes também é muito bom. Quem eu tenho ouvido muito é Eliot Smith. Gosto de buscar coisas novas para ouvir em qualquer lugar.

(O texto completo desta matéria você pode ler na versão impressa da Revista Dynamite nº 75)

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