Gene Simmons, a secular linguona do Kiss, reafirma que o rock morreu; e infelizmente talvez seja VERDADE

Confira também esta matéria em áudio!

Sete anos após declarar a MORTE do rocknroll o baixista e vocalista do Kiss, Gene Simmons (acima), voltou a decretar o fim do gênero musical mais popular do século passado; morto ou semi morto, o rock ainda tenta se manter ativo e respirando, e sempre mostrando boas e novas bandas tanto lá fora como aqui também, como é o caso do grupo indie guitar folk psicodélico mineiro Pedro Bala & Os Holofotes (abaixo), que lançou um ótimo álbum de estreia em 2020

Cá estamos novamente, e agora na reestreia OFICIAL do blog Zapnroll em sua versão 2021. Yep, o ano em que o mundo continua amargando o terror da pandemia do vírus mortal. O ano em que o planeta tem esperança nas VACINAS anti Covid, para que a mortandade mundial cesse ao menos um pouco e para que a vida de todos nós possa voltar, ainda que bem devagar, minimamente ao normal. O ano, enfim, em que talvez (talvez…) a cultura pop possa voltar a respirar, com cinemas e teatros sendo reabertos e recebendo público presencial, com clubes e casas noturnas reabrindo suas pistas de dança e com milhões de fãs espalhados pelos quatro cantos da Terra podendo voltar finalmente a curtir, ao vivo, seu artista ou banda preferida – incluso aí os grupos que ainda se dedicam a manter vivo o nosso (meu e seu) amado rocknroll. Opa… quer dizer… ainda vivo? Talvez não tanto ou não mais tão vivo assim está o rock, como você vai ler aí embaixo nesse primeiro (e, só para não perdermos a fama, polêmico) post zapper oficial deste ainda mega sinistro e tenebroso 2021. Então bora ler galera, sendo que é um imenso prazer para nós estarmos por aqui com vocês novamente.

GENE SIMMONS, O VELHUSCO BAIXISTA LINGUÃO DO MAIS QUE CAPENGA KISS, REAFIRMA O QUE DISSE HÁ SETE ANOS: O ROCK FOI PRA CASA DO CARALHO. FOI MESMO? TALVEZ SIM, INFELIZMENTE…

O tema é polêmico e altamente explosivo – ao menos para aqueles que ainda amam o velho rocknroll –, e não é de agora. Há quase sete anos, em outubro de 2014, o secular fundador e baixista do velhusco (e a essa altura, totalmente capenga, diga-se) quarteto hard rock americano Kiss, o linguão gigante Gene Simmons, afirmou categórico em uma entrevista à revista Squire, que “o rock ESTÁ MORTO!”. Pois agora no início de 2021, ano em que o mundo ainda sofre severamente com uma pandemia mortal e medonha, onde bilhões de seres humanos torcem para que vacinas deem um freio na mortandade causada pelo corona vírus e onde tudo o que não precisamos (especialmente na música e na cultura pop) é de mais declarações bombásticas e polêmicas, Gene voltou a reafirmar que, sim, o rock mundial continua mortinho da silva. “O rock está morto porque as novas bandas não tomaram tempo para criar coisas glamourosas e épicas, repletas de entusiasmo. Quer dizer, o Foo Fighters é uma banda incrível, mas é uma banda de 20 anos atrás”, disse ele ao site Gulf News. E, para surpresa (e até horror) de quem está lendo esse post, este jornalista novamente blogger e eternamente rocker é meio que obrigado a concordar com o baixista do Kiss – banda que, diga-se, o sujeito aqui nunca morreu de amores por ela.

A equação é simples e não vem de hoje. Há anos já o rocknroll mundial vem sofrendo em termos de queda de popularidade entre a pirralhada mais jovem (que é, afinal de contas, quem DE FATO consome música no mundo, especialmente nos Estados Unidos, o maior mercado musical do planeta), que hoje em dia se identifica muito mais com ritmos, digamos, mais atuais e empolgantes, além de serem mais simples em sua estrutura e composição e, por isso mesmo, também de digestão mais fácil para o ouvinte médio adolescente. Há alguns anos já que infelizmente, de acordo com as últimas pesquisas sobre o gosto musical do consumidor americano, o rock deixou de ser o gênero musical preferido por lá, onde reinou quase absoluto por mais de cinquenta anos. Hoje amargando um quase vexatório quarto lugar na lista dos estilos musicais preferidos pelo ouvinte dos EUA, o rock perde longe para os campeões de vendas (online ou ainda em plataformas físicas) e de execução em todas as mídias possíveis (das tradicionais às da web), que são a música eletrônica, o hip hop e o rap. No Brasil então, a situação é muito mais dramática para o cenário musical rocker. Com o domínio implacável das duplas sertanojas BURRONAS (e que são a trilha oficial do gigante agro negócio brasileiro, além de também ser a música do coração de uma sociedade bastante ignorante e que elegeu para a presidência do país um político completamente boçal e conservador de extrema  direita), que possuem uma musicalidade paupérrima em termos artísticos e qualitativos (tanto na composição musical quanto nas letras primárias e, não raro, eivadas de frases e insinuações machistas e homofóbicas, algo inadmissível nos tempos atuais) tanto no que ainda resta do chamado mainstream musical quanto na grande mídia, o rock foi literalmente RISCADO do  mapa musical do país. Para se ter uma ideia do que estamos escrevendo aqui, basta dar um Google rápido, e consultar quais foram as dez músicas e os dez artistas mais executados em todas as mídias eletrônicas tradicionais e já velhonas (rádios e tvs) e digitais (Spotify, YouTube, streamings variados) no Brasil em 2020. Dessa lista, NOVE nomes são do universo sertanojo. E apenas UMA artista conseguiu furar esse bloqueio horrendo e perverso: a funkeira Anitta (sendo que Zapnroll não é exatamente fã de funk mas tem total admiração pelo trabalho da artista carioca e pela sua postura como mulher empoderada em todos os sentidos e um ser humano que soube chegar onde chegou por totais méritos e esforços próprios), talvez hoje o nome da música brasileira mais conhecido no mundo inteiro.

Dói e aperta o coração relatar tudo isso aqui? Sem dúvida. Afinal o autor destas linhas zappers sempre foi um roqueiro apaixonado pelo estilo, desde a sua pré adolescência. E ao longo de seus trinta anos de atuação no jornalismo cultural e musical brasileiro, sempre defendeu a cena rock (a alternativa, principalmente) com unhas e dentes, acompanhando festivais pelo país afora e descobrindo novas bandas (como a cuiabana Vanguart, a amazonense Luneta Mágica ou a mineira Pedro Bala & Os Holofotes) para o público ainda interessado nelas. Mas fato é que, infelizmente, tudo mudou muito nos últimos anos – e para bem pior, no caso do rocknroll.

Com o rock quase morto lá fora e já ENTERRADO aqui, no bananão selvagem boçalnaro, pode esquecer: vai ser muito difícil (se não for impossível) surgir novamente na música mundial um grupo da importância e da envergadura artística que os imortais Rolling Stones possuem, até hoje

Quais seriam os fatores da eminente MORTE do rock no Brasil (especialmente) e no mundo? Vários e matéria para looooongaaaaa discussão. Mas, basicamente, parece que o rock se desconectou de seu público alvo principal, os jovens, que não enxergam mais no gênero aquele baluarte de contestação, subversão, ativismo, transgressão e engajamento político e social que o caracterizaram durante décadas. O rocknroll que se notabilizou por protagonizar momentos clássicos e históricos da cultura pop mundial, tanto em termos políticos (no festival de Woodstock no final dos anos sessenta, e que bradou contra o envolvimento dos Estados Unidos na guerra do Vietnã), quanto libertários e anarquistas (o punk inglês dos anos 80) e também sociais (o inesquecível festival Live Aid, realizado em 1985 e que arrecadou bilhões para os povos famintos africanos), parece ter ficado perdido na poeira do tempo. No Brasil a situação se tornou ainda pior, com artistas do rock BR dos anos 80 (e que tiveram bastante relevância naquela década preciosa para o rock nacional), como Lobão e Roger Moreira (da hoje falida banda Ultraje A Rigor) aderindo ao conservadorismo de extrema direita (algo antes impensável para um músico de… rock) e apoiando sem pudor a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil. Isso sem contar que muitos “roqueiros” brasileiros (especialmente os fãs de heavy metal, de hard e classic rock, a maioria tiozões ostentando panças grotescas e rabos-de-cavalo grisalhos) também se bandearam para a extrema direita reacionária, machista, misógina, RACISTA, homofóbica, conservadora e careta ao extremo. Ou seja: o rocknroll (especialmente no Brasil) se tornou tudo aquilo que nossos pais e avós eram e que seus filhos e netos detestavam. Aqui, o rock se tornou total BUNDA MOLE e reaça. E a molecada (ao menos aquela ainda engajada, com cérebro e antenada em música jovem transgressiva e subversiva) foi atrás de outro gênero musical que falasse o que ela desejava ouvir em termos sociais e políticos. Foi aí que entrou em cena o rap paulistano e o funk produzido nas comunidades periféricas de metrópoles como Rio De Janeiro e São Paulo. À parte o domínio massacrante na mídia das duplas sertanojas, o rap e o funk desempenham hoje, musicalmente falando, o papel de transgressão política e social e são a voz dos jovens que, um dia, já amaram o rocknroll mas que não enxergam mais no já idoso e (em certo sentido) MORTO estilo musical o representante ideal para aquilo que eles querem ouvir. Fora que enquanto tanto o rap quanto o funk tem se renovado e mostrado ótimos novos nomes em termos de qualidade musical (como Emicida, Criolo, Baco Exú Do Blues e Anitta), o rock brazuca AMARGA uma falta de renovação cruel. Sim, bandas novas ainda existem aos montes e surgem a todo momento para tentar manter viva uma cena já quase em estado de putrefação. Mas a grande maioria é RUIM DE DOER (tanto no texto das letras quanto na música boba e simplória que constroem) e poucas realmente se salvam e são dignas de merecer uma audição e atenção um pouco maior. Além disso tudo (e talvez um dos fatores principais para compor esse quadro trágico atual para o MORTO roquinho brazuca) é que NÃO HÁ MAIS PÚBLICO JOVEM interessado em ouvir as novas bandas, seja através de plataformas digitais, seja em shows ao vivo. Esses então, praticamente já eram (ainda mais depois da eclosão da pandemia): nos últimos dois anos várias casas noturnas que abriam espaço para shows de grupos alternativos de rock autoral em São Paulo (especialmente no centro da cidade e em bairros como a Vila Madalena) simplesmente fecharam as portas. Os que resistiram tiveram que se adaptar aos novos tempos e o exemplo mais claro disso é o tradicional clube Outs, na rua Augusta (região central da capital paulista): completando incríveis dezoito anos de existência este ano (em julho próximo), o Outs viveu o auge da cena rock  independente autoral nacional entre 2005 e 2012, quando lotava todos os finais de semana (em um espaço onde cabem, com folga, mais de quinhentas pessoas) com gigs de grupos como Forgotten Boys, Cachorro Grande, Rock Rockets, Matanza etc. De 2012 em diante o clube viu o público interessado em ouvir e ver bandas indies nacionais ao vivo minguar drasticamente até que, por volta de 2014, resolveu mudar tudo em seu planejamento e estrutura, para não ter que FECHAR AS PORTAS. Instituiu a balada “open bar” (paga-se um valor fixo na entrada e bebe-se até cair lá dentro), CANCELOU as apresentações de bandas ao vivo e priorizou apenas a discotecagem em suas duas pistas. Com um detalhe: a pista do andar de cima, dedicada ao funk e à música eletrônica, vive LOTADA. A de baixo, ainda dedicada ao bom e velho rocknroll, enche bem ainda (e de uma garotada jovem, o que é bom sinal pois mostra que o rock ainda mobiliza a atenção de certa parcela da gurizada atual) mas perde longe para a lotação da pista do andar superior. Com essas mudanças o clube saiu do vermelho, passou a lotar novamente nos finais de semana e era, até o advento da pandemia, um dos endereços mais hot da atual noite under jovem paulistana. E ao longo dos últimos meses, ainda tem se mantido aberto e como possível (seguindo todos os protocolos sanitários atuais), para alegria dos frequentadores. A torcida é para que ele volte com tudo assim que a imunização em massa no Brasil começar a surtir efeito, continuando a ser o melhor espaço alternativo noturno da capital paulista ainda por muitos anos.

Assim como é também a torcida deste espaço blogger rocker para que um dia o rock RENASÇA das CINZAS, tanto lá fora quanto aqui também. Mas fato é que, por enquanto, o jornalista zapper concorda com o que disse Gene Simmons: infelizmente o rock atual respira por aparelhos na gringa. Aqui, parece ter morrido de vez. Claro, nos últimos vinte anos algumas bandas muito bacanas surgiram e deram SOBREVIDA ao gênero, como Strokes, Interpol, Franz Ferdinand, Tame Impala, Black Keys, Arctic Monkeys etc (lá fora), e Vanguart (aqui no triste bananão boçalnaro). E claro, o grande e eterno rocknroll estará sempre aí, para as novas gerações e para a posteridade, através dos discos clássicos e imbatíveis que foram gravados, dos shows memoráveis que aconteceram ao longo das últimas seis décadas, da história de bandas e artistas GIGANTESCOS que entraram para a história da música mundial, como The Doors, The Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin, Black Sabbath, Beatles, Pink Floyd, Smiths, REM, Joy Division, Echo & The Bunnymen, Nirvana, Morrissey, Kurt Cobain, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Lou Reed, Mick Jagger, David Bowie etc, etc, etc. Nunca mais haverá nomes iguais a estes e dificilmente surgirão novamente artistas de calibre musical e artístico semelhante. Mas não custa sonhar, néan.

Então Zapnroll fecha sua análise concordando com a opinião do velho Gene Simmons, nesta sua reestreia oficial no portal Dynamite. Claro, muita gente vai discordar do que está escrito aqui. E outros também irão concordar. E isso fica bem claro (essa discordância e concordância) nas opiniões e depoimentos que o blog colheu de alguns (mas) amigos (as) nos últimos dias, para adicionar a esse post. São depoimentos e opiniões de quem entende do assunto e que vive e respira rocknroll, como músicos, jornalistas e produtores de espaços noturnos que ainda se dedicam ao rock. Parte dessas opiniões (todas um pouco extensas, mas muito bem argumentadas) seguem logo mais aí embaixo. A outra parte dessas opiniões entrará no nosso post da semana que vem.

E para quem for acusar o blog de querer MATAR (rsrs) o rocknroll após ler esta postagem, damos o benefício também mais aí embaixo: links para o leitor escutar três bandas independentes nacionais bacaníssimas e que lançaram ÓTIMOS trabalhos inéditos em 2020, em plena pandemia. Quem sabe um deles não recoloca o rock novamente no mapa musical brasileiro, tão dominado e maltratado pela música sertanoja da pior qualidade. Quem sabe… não custa sonhar…

MAIS TEXTOS PARA ENTENDER POR QUE O ROCK ESTÁ MORTO OU QUASE MORRENDO

https://veja.abril.com.br/cultura/o-rock-morreu-e-desta-vez-nao-ha-engano/

TRÊS GRUPOS DO ROCK INDEPENDENTE BR ATUAL, E QUE PODEM RECOLOCAR O GÊNERO NO MAPA DA MÚSICA BRASILEIRA

O ROCKNROLL MORREU, AFINAL? UNS CONCORDAM, OUTROS NÃO

*** Mateus Cursino, vocalista e guitarrista do trio mineiro Pedro Bala & Os Holofotes: O rock ainda não está morto mas hoje sobrevive de maneira “capenga”. Vou me limitar, o que acontece no Brasil vergonhoso que hoje vivemos. Existem ótimas bandas novas, muitas vezes em guetos de classe média alta, tocando em poucos bares ainda abertos que dão espaço ao rock n roll e as bandas que possuem um trabalho autoral consistente conseguem se manter tocando em unidades do Sesc, em festivais esporádicos e em alguns teatros. Mesmo fora do mainstream, bandas como Boogarins, o Terno, Maglore entre outras, resistem e vivem de música autoral. Agora, o que não podemos deixar de destacar aqui é a grande quantidade de “admiradores” desse gênero na faixa dos 35 aos 55 anos que hoje são verdadeiros tiozões reaças, bolsominions e que vivem de nostalgia dos seus tempos ainda jovens, preferindo ouvir bandas covers de Iron Maiden, Guns N’ Roses, ACDC e pouco se fodendo com o cenário atual. O mainstream não se interessa pelo rock porque atualmente o rock não vende, outros estilos são predominantes entre os mais jovens, estilos mais fáceis de consumir e descartáveis. Descartáveis no sentido de se produzir um hit hoje e os mesmos artistas sumirem do mapa amanhã, sem um trabalho consistente, sem uma carreira. Claro que há exceções, Pabblo Vittar e Anitta são exemplos de artistas bem sucedidos com carreiras sempre em alto nível e as duplas sertanejas são uma tradição do país desde os anos 90. Porém, os hits sertanejos que nos anos 90 agradavam aos ouvintes brasileiros, assim como o pagode e o axé, hoje já não fazem parte do topo do mercado musical. Assim, os estilos vão se reciclando, o sertanejo universitário adotou em suas letras o cotidiano de baladas e bebedeiras dos jovens atuais, deixando pra trás sua ligação com o homem do campo e etc.

*** Jairo Lavia, jornalista e fotógrafo: Há muito tempo o rock já não existe como antes, principalmente se nos remetermos aos anos de 1980 e 1990, quando houve um grande interesse das gravadoras e mídia brasileira, sejam estes interesses personificados em seus programas de auditório, emissoras de rádios e cadernos de cultura e revistas especializadas. E mesmo este vácuo deixado por estes canais não é suficiente para tirar do público jovem a satisfação pelo bom e velho rock’n’roll. A essência estará sempre viva, mas visível obviamente na internet com seus blogs, youtubers, sites especializados e especialmente os serviços de streaming. Uma ou outra rádio ainda é fiel ao som, e gravadoras também não existem nos mesmos modelos de antes e não são mais tão necessárias para catapultar artistas. Assim como a divulgação, que funciona mais por conta própria em páginas para artistas independentes, como Bandcamp, Facebook, Youtube e Instagram. São nestes espaços que os entusiastas pelo rock e suas vertentes musicais precisam correr atrás das bandas novas, que surgiram aos montes nos últimos anos. Mas não espere nenhuma “revolução musical” em torno do gênero. Não há realmente aquela banda, pelo menos no cenário nacional, capaz de encher um estádio. Dificilmente nascerá em terras brasileiras um novo Nirvana, mesmo porque existe muito pouco para explorar musicalmente no rock depois de seus quase 70 anos de existência, desde que Chuck Berry mandou seus primeiros acordes na guitarra ou Elvis requebrou sua pélvis. Além do fato de que o Brasil ser um mercado periférico do gênero. Não é a incapacidade de inovar que determina realmente a morte de um gênero, e sim se ele ainda desperta o interesse dos músicos, além de alcançar consideravelmente os corações e mentes de um público amplo, principalmente na faixa entre os mais jovens e adultos, digamos até os 25 anos, quando começam a ter as suas primeiras experiências com o gênero musical. Eu creio que esta relevância ainda exista, e sempre haverá este público, mesmo que as pesquisas, dependendo das regiões do País, e a nossa própria observação diante do noticiário – e até in loco – comprovem que jovens se voltaram para um som mais pop, o sertanejo, o hip-hop, a música eletrônica ou mesmo o funk à la Anitta. A questão é que mesmo com um público mais escasso, como explicar então os ingressos esgotados de shows e festivais de rock com as inúmeras bandas gringas que desembarcam no Brasil. Por outro lado, o mesmo prestígio na maioria das vezes não é dispensado para as bandas nacionais. Estas conservam um público fiel voltado para o circuito de bares, casas independentes de shows, apresentações no Sesc, centros culturais, ou mesmo festivais pequenos organizados pelas próprias bandas. E também em apresentações na rua, onde eu mesmo tive o primeiro contato com várias bandas durante o período da Avenida Paulista aberta ao público aos domingos, entre agosto de 2015 a março de 2020. Provavelmente você nunca assistirá uma destas bandas na TV, mesmo porque as emissoras não têm mais interesses em programas voltados para o rock, além de nos tornarmos órfão da MTV, mas talvez as escutará no máximo numa rádio como a Kiss FM ou similares que exista fora da cidade de São Paulo. A busca pela audiência está em outros meios de divulgação, já citados acima. Uma ou outra ganhará mais espaço, e quem sabe conquistará uma oportunidade para abrir festivais como Lolapalloza. A destacar algumas, cuja qualidade é inegável, como Jonnata Doll e os Garotos Solventes;  Devilish; Giant Jellyfish; Desert Dance, com seu estilo mais hard rock oitentista; Picanha de Chernobill, mais voltada para um hard rock, hard-blues sententista; Imigrantes italianos do século XX, com uma atitude mais debochada; o heavy metal do Válvera, que inclusive já excursionou pela Europa; Aparelho, punk-rock com influência direta de Garotos Podres; o stoner rock em bandas como Casquetaria, Bear Witness, Desert Crows, Hammerhead Blues, War Industries Inc, Riders in Death Valleys; as meninas ativistas feministas do Maluria; o new wave gothic do Der Baum; o instrumental pesado do StringBreaker; o duo baixo-bateria do Wolf Among Us; o duo garage rock do The Tropical Riders; e o pop-rock do Kanduras. São apenas alguns exemplos de bandas autorais que se utilizam do rock e suas vertentes para públicos de diferentes gostos e estilos. O que existe de melhor neste som ainda perdura e continua aparecendo todos os anos, mesmo encontrando dificuldades para alcançar públicos maiores.

***Marcelo Moreira, jornalista musical, autor do blog Combate Rock (https://combaterock.blogspot.com/): O rock foi o maior prejudicado com as mudanças de hábitos de consumo de música e arte e com a derrocada da indústria fonográfica como a conhecíamos. Assim como jornalismo noticioso, a música ficou grátis, de muito fácil acesso, fazendo com que gerações de pessoas a partir dos anos 90 se recusasse a pagar por música e pela maioria dos conteúdos de internet. Esse avanço da tecnologia, aliado à miopia da indústria da música e à intensa pirataria, tornou a música algo fácil e de nenhum valor. Hoje o comprometimento das pessoas com a arte é nenhum, ouve-se música no celular pagando meros R$ 17 por mês. Ninguém se preocupa mais com as informações sobre os artistas ou fichas técnicas. Diante dessa mudança de hábitos de consumo, o rock perdeu espaço e a tendência é virar música de nicho, como o blues e o jazz, coisa meio que para iniciados. Não vai morrer, pois sua força e resiliência são imensos, mas deixou de ser a música da juventude, rebelde e com atitude, de contestação, como uma vez o blues já foi. O rock não predomina, mas tem alguma força nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, sempre foi coisa de classe média, e só se popularizou nos anos 80 porque era uma época propícia a mudanças. A juventude daquela época queria mudar, e a trilha sonora tinha que ser coisa nova, e não a fossilizada MPB de então ou os enterrados Tropicalismo e Bossa Nova. Quando os ventos da mudança passaram, a juventude gradativamente passou a se desinteressar do rock em favor de outros gêneros mais alinhados ao gosto popular brasileiro e às raízes de nossa cultura. Aquele gênero de classe média importado do Norte perdeu visibilidade e apelo, deixou de falar com a juventude dos anos 2000 e ficou tocando para ele mesmo. Talvez o rock hoje tenha o tamanho que sempre deveria ter tido para evitar um tombo tão grande. O rock não vai morrer, está se reinventando, mas não será grande novamente.

***Tatiana Ramos, empresária, dj e sócia do bar e clube Outs, em São Paulo: Falar que rock morreu é meio coisa de preguiçoso né?! Hoje em dia com tantas facilidades para conhecer novas bandas ou novos lançamentos, só não escuta quem não quer. O Spotify mesmo disponibiliza playlists semanais de acordo com seu gosto musical, tanto com bandas novas como com lançamentos de bandas já consagradas e outras nem tanto, e isso é só um jeito novo de interagir para os preguiçosos de plantão. Para quem curte rock mesmo basta caçar na internet, nas páginas de publicações do gênero como NME, entre outros, e já está tudo ali mastigado. Se tiver um pouco mais de interesse, você mesmo faz suas próprias pesquisas e ouve através de streaming na hora, nada parecido com aquele trabalhão que tínhamos antigamente fazendo downloads intermináveis correndo o risco de ainda pegar um vírus no computador, ou mais antigamente ainda, quando tínhamos que depender de um disco chegar ao Brasil ou esperar a rádio tocar. Óbvio que nada será como antes, não teremos novos AC/DC, Kiss ou Led Zeppelin mesmo porque esse tipo de tentativa de achar uma banda parecida com essas ficamos apenas com cópias mal feitas como Greta Van Fleet. Não queremos ser aqueles velhos chatos que só vivem do passado, repetindo o bordão que rock bom era nos anos 70/80, ou que o rock morreu. Tem muita coisa boa, tanto bandas novas, como bandas já consagradas que estão lançando discos/faixas fresquinhas e com qualidade, como Strokes que lançou em 2020 um excelente disco ofuscado pela pandemia, mas que facilmente teria bons hits caso os shows fossem possíveis ou as baladas estivessem na ativa. Foo Fighters lançando músicas nova parece bom, assim como SOAD (System Of A Down) também lançou e agradou, e nem são bandas que tenho paixão. Ouvi uma prévia do novo do Kings of Leon e me lembrou a banda em seu auge. O underground também nunca parou, várias bandas em 2020 lançaram excelentes produções “caseiras” e teve muita coisa legal como a nova banda “Quero ser David Peel” que lançou música bem bacana e que sempre escuto, independente de ser do meu irmão, parece que estou puxando sardinha mas é realmente bom. Black Honey é uma banda inglesa underground que vem crescendo bastante, e que descobri por acaso numa gig do NME em Londres/2019. Sem contar novos “estilos” como Billie Eilish, ou Machine Gun Kelly, que muitos vão criticar como sendo não-rock mas eu aposto que são e tem novos álbuns muito bem feitos e produzidos e com certeza enchem estádio tocando sozinhos. Tudo isso e não estou nem me atentando a outras vertentes do rock, como hardcore que nunca para de lançar coisas, seja no Brasil ou no mundo. Então deixem de preguiça ou de ouvir rockeiro reaça dizendo que “o rock acabou” ou “no meu tempo era rock de verdade” e vai ouvir um rock aí.

***Jonnata Araújo, vocalista da banda Jonnata Doll & Os Garotos Solventes: Sobre isso é preciso considerar que a música que hoje fala com os jovens, que é popular, é sexy. Das sofrências sertanejas, amálgama de brega e pop rock nacional, até o minimalismo musical da música eletrônica feita no espírito da quebrada, pelas minorias, politicamente engajadas ou não, tudo é sexy, feito para dançar pertinho e rebolar a raba. E o rock quando surgiu nos anos 50 era isso, música para os quadris, feito por pretos e brancos marginalizados, mas desde então, ele vem esquecendo os quadris. Hoje em dia no underground musical das grandes cidades, há muitas causas, causa de preto, mulheres, trans, indígenas… E ser rebelde sem causa não pega bem e não é justo que no rock, tenha poucos pretos, mulheres e trans. Hoje em dia, isso é mais evidente pois, por outro lado, muitos rockeiros conservadores colocaram as mangas de fora neste contexto mundial de trumps e bolsonaros. Porém, tirando casos isolados, é  raro ver um grupo de jovens hoje em dia construindo um movimento, uma zona, .em torno de jazz, música erudita, ou blues. Mas ainda se ver jovens à caráter se encontrando para beber até de manhã pelo Vale do Anhangabaú no centro de São Paulo, ouvindo punk, metal e pop rock em caixas de som ching ling com bluetooth, enquanto o metrô não abre para leva-los de volta a periferia. Então o rock esta vivo sim e ele também se diluiu na linguagem universal, virou um elemento poderoso dentro da música feita por artistas que não se enquadram a nenhum gênero específico, está na trilha sonora de animes, games e rpg e está vivo principalmente em artistas novos como Black Pantera, Rakta, Mateus Fazeno Rock, Verônica Decide Morrer, Test, Deafkids, Vazio, Blatfemme… essas bandas só não chegam mais até você na forma de um k7 gravado para por uma amiga mais velha  que vai te iniciar no rock.

***Flavius Deliberalli, baterista da banda de rock experimental paulistana Impéria: O Rock não morreu. Ele mudou, assim como seu público e seus personagens. O público envelheceu e o jovem não se interessa muito. Até porque a música também mudou. Deixou de ser arte, de difundir engajamento. Virou entretenimento. E o jovem da atualidade quer entretenimento. Músicas que não falam nada, só divertem. Os artistas também estão nessa porque quem entendeu isso vai ganhar dinheiro. Vai atacar os ritmos que a mídia abraçou. O rock continuará no underground, para quem quer e quem o ama. Para quem ainda entende a música como expressão e arte, modo de vida. Não teremos mais mega bandas, teremos mais bandas, mais opções, mais artistas, mais nichos, mais estilos mas sempre rock, para uma parcela de público cada vez mais limitada. Outra questão importante: o músico de rock precisa evoluir. Entender que a carreira hoje é self service. Não vai mais ter um empresário batendo na sua porta ou cuidando de tudo para você. A internet causou isso e é irreversível. O rock segue, com público cativo, envelhecido, viciado em hard rock e nas grandes bandas, com a mente fechada para o novo porque ainda espera um Led Zeppelin, mas segue. E os roqueiros seguem, trabalhando duro para tentar mostrar que o rock se renova e tem muita coisa boa por aí. Afinal de contas, o rock é underground e para todos.

(no próximo post as opiniões sobre a morte ou não do rock continuam, com depoimentos de Giuliano Mendes, Xanda Lemos, Léo Rocha, João Pedro Ramos e André Pomba)

RAPIDÃO, O BLOG ZAPPER DESTACA

***com a volta destas linhas sobre rock alternativo e cultura pop ao formato blog, vamos aproveitar e deixar aqui o link do canal Zapnroll no YouTube que, durante um ano, produziu programas e conteúdo bacaníssimo sobre o que todos nós amamos – rock e cultura pop, oras. Infelizmente o canal teve que ser encerrado por conta da pandemia, mas lá continuam à disposição dez programas para quem quiser assistir ou rever. É só ir no link aí embaixo:

https://www.youtube.com/channel/UCNo4Sdc0cNQ1rB_3_TclwBg

***e já que o assunto principal deste post é a provável morte (ou não) do rocknroll, é sempre importante destacar novos lançamentos dentro de um gênero tão maltratado e desprezado pela mídia nos últimos anos, especialmente aqui no Brasil. Um bom exemplo de que ainda existem ótimos grupos na cena alternativa autoral brasileira é a coletânea “Emaranhado”. Compilada e lançada ano passado pelo site Crush Em HiFi (administrado pelo agitador cultural, dj e produtor João Pedro Ramos), a coletânea reúne catorze grupos que gravaram composições uns dos outros, dando sua interpretação pessoal a cada uma delas. O resultado ficou bem legal e pode ser ouvido aqui: https://open.spotify.com/album/3XoVmFfuJOpwEvE88VmRLe?si=qhdlhDaXSDK7cxlELki59g

***e não é que o autor deste já veterano espaço de cultura pop teve que se render, enfim, à NetFlix? Culpa da pandemia e do isolamento social forçado, claro. Um eterno apaixonado e fanático por cinema, Finaski de repente se viu privado (como todo mundo) de ir ao cinema. Canais de filmes da tv a cabo, além de estarem cada vez mais caros para serem acessados, ainda nos irritam com uma repetição sem fim de títulos irrelevantes. A solução então foi apelar para a plataforma Flix, e ceder a ela. Não dá para reclamar: o preço é super em conta e há séries e filmes para todos os gostos (com muita tranqueira no conteúdo, é vero). E do que já assistimos por lá, dá pra recomendar tranquilo as séries nacionais “Coisa mais linda”, “Bom dia, Verônica” e “Made In Honório” (sobre a trajetória da cantora Anitta). Das gringas não dá pra escapar da sensacional “O gambito da rainha”, talvez a melhor série produzida pela plataforma no ano passado e que se tornou sucesso mundial. Filmes? O blog recomenda para este finde, para quem ainda não viu, “A voz suprema do blues” (com Viola Davis e Chadwick Boseman, em sua última atuação nas telas antes de falecer, vitimado por um câncer) e que recebeu uma bela resenha do nosso querido expert em cinema, o dengoso (rsrs) Ítalo Morelli Jr, e que pode ser lida aqui: https://www.oquetemnanossaestante.com.br/2021/01/a-voz-suprema-do-blues-critica-do-filme.html?spref=fb&fbclid=IwAR2vCSn7c-rGnAN6KoPDvzGiBOnUBDfnIbyHXoyzEsTwqGIt0isX_fZlg6E

E FIM DE PAPO POR AGORA

Yep, pois o postão já virou textão (hihi) e todos nós sabemos que o povo, na era da web, não tem muita paciência pra ler textões, hehe. Mas como é a reestreia destas linhas zappers nos permitimos caprichar, néan. Sendo que prometemos posts menores a partir dos próximos. Então é isso. Valeu por nos acompanhar até aqui e semana que vem, se nada der errado, tem mais. Até lá!  

(enviado por Finatti em 15-1-2021, às 18hs.)

O texto dos blogs bem como os comentários não refletem, necessariamente, a opinião da Dynamite. A responsabilidade das opiniões emitidas é tão somente dos próprios autores.

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Roger
1 mês atrás

Mais mortos que o rock estão os comentaristas de rock e o comunista de boteco. Vc sempre foi um merda, Humberto. E seu julgamento de mim é raso e cheio de inveja.

Emerson
Emerson
1 mês atrás

Parte da culpa é do público brasileiro de rock que não abre a cabeça para novidades.Tirando alguns nichos específicos qualquer coisa que não pareça Legião Urbana ou se não for “dipurpli” pros tiozões pançudos de rabo de cavalo cosplayers de “reus angeus” de condomínio o povo torce o nariz.E outra parte da culpa é da mídia que tentou a todo custo empurrar lixos do naipe de CPEMO 22 e Restart.

Emerson
Emerson
1 mês atrás

Em tempo.Em 2019 o Dead Fish lançou um álbum PRIMOROSO DE CABO A RABO quanto as letras (o som fica a questão de gosto de cada um, eu gosto, outros não) que passou…total despercebido.Assim não há cena que resista.

Oleude Jose Ribeiro
Oleude Jose Ribeiro
1 mês atrás

Finas, vc assiste Netflix na sua tv de tubo? funciona?

zé fandofinas
zé fandofinas
1 mês atrás

Que bom vc estar de volta. Se a Globosta tivesse um pouquinho de bom senso colocava vc no lugar do agora demissionário Faustão.

Maizum Fandofinas
Maizum Fandofinas
16 dias atrás

“Valeu por nos acompanhar até aqui e semana que vem, se nada der errado, tem mais. Até lá”

Já passou um monte de semana que vem e nada de texto novo. Tomara que nada tenha dado errado.

Maizum Fandofinas
Maizum Fandofinas
13 dias atrás

Vc tem razão, Finas! Eu ando bebendo maconha demais e cheirando vinho demais. Meu celu está pior que eu, não conseguia atualizar a página, agora consegui e estou lendo teu blog inteiro. Abs