Macaco Bong: “Mondo Verbero” é um Brasil que o trio sente

Confira também esta matéria em áudio!
A banda de Cuiabá apresenta seu novo álbum, produzido inteiramente de maneira remota

Por Pablo Miyazawa

Mondo Verbero, o mais novo trabalho do Macaco Bong, é um caso singular na extensa discografia do trio instrumental de Cuiabá/MT. Escrito, produzido e gravado totalmente com recursos remotos, trata-se de um perfeito retrato das consequências criativas geradas pelo confinamento forçado dos últimos dois anos. Também é a prova musical de que distâncias, restrições e angústias não deveriam ser empecilhos ao exercício da boa arte. Nesse caso, as dificuldades serviram como ingredientes muito estimulantes.

Trata-se do primeiro álbum de inéditas gravado pela atual formação do Macaco Bong – Bruno Kayapy (guitarra), Hygor Carvalho (baixo) e Éder Noleto (bateria) -, juntos como banda pela primeira vez desde 2014. “Juntos”, porém, é mero eufemismo: as trocas à distância de ideias e pedaços sonoros se desenvolveram em canções durante as sessões de ensaio exclusivamente virtuais. “Foi um álbum criado por Zoom e WhatsApp”, revela Kayapy, referindo-se à metodologia improvável em outras eras, mas perfeitamente alinhada com os tempos pandêmicos. O resultado é a obra mais climática e experimental da banda em quase duas décadas. “É um disco que desenhou para nós a importância da cultura da gambiarra”, decreta o guitarrista-fundador do Macaco Bong, rindo, mas falando sério.

Crédito: Helena Rizzo

As faixas de Mondo Verbero foram gestadas cronologicamente, uma por vez, na ordem em que aparecem no disco. Só depois de finalizar as músicas a banda se deu ao trabalho de batizá-las, com títulos que de alguma forma dão pistas das intenções. Ritmos brasileiros e latinos foram as inspirações espontâneas que celebram o que o trio está escutando no momento, amenizando o peso típico de essências roqueiras e jazzísticas que impulsionaram o Macaco Bong à fama na segunda metade dos anos 2000. E por falar em título, Mondo Verbero refere-se ao nosso planeta sofrido e chicoteado, mas a sonoridade parece dizer o oposto: é uma ode à filosofia de jamais perder as esperanças, embalada a virtuosismo, pitadas de deboche e orgulho inabalável de suas raízes de referência.

Se em uma ouvida despretensiosa os dez temas instrumentais parecem contar uma história, é porque estão mesmo: Mondo Verbero soa como uma road trip alucinógena pelas estradas de um Brasil de sonho, pulsante, colorido e instigante. A malemolente “Cho” abre o disco em marcha reduzida, com suaves guitarras múltiplas que se entrelaçam sob uma base hipnótica tranquilizante, como se nos preparasse com cautela para os esporros que estão por vir.

Segunda faixa do disco (e segundo single revelado), “Kãeãe”, traz luz a uma gíria típica cuiabana que representa uma interjeição de susto. É também uma tentativa de experimentar com as sonoridades locais – no caso, o rasqueado cuiabano, o ritmo regional originado da polca paraguaia. “Mas virou um rasqueado troncho, cheio de quebradas”, explica Kayapy, que ainda confessa: “Esta é a música do disco mais difícil de tocar”.

“Hacker de Sol”, um baião com toques de frevo, é uma celebração ao Astro-Rei, “o maior ícone cultural de Cuiabá, o nosso Beatles”, como define Kayapy, sobre a estrela que sempre brilha impiedosa sobre a capital mato-grossense. Quase como uma continuação natural, “Treze” é um forró elétrico que também aponta seus ritmos ferozes para o estado do Brasil atual. O nome evoca a gíria policial (para quem não sabe, significa “maluco”) e o clima de insanidade generalizada do país, mas a possível conotação política ligada ao numeral também não é mera coincidência. Entendedores entenderão.

Fechando a primeira metade, “Reverbo” chama a atenção por suas frases de guitarra mântricas e serpenteantes com um timbre que imita um macabro órgão de igreja. A intenção, bem-sucedida por sinal, é criar um clima de Velho Oeste, “o Tarantino fazendo um filme no Pantanal”, sugere Kayapy. A sequência, “American Junkie Pop”, mantém a vibe “terra-sem-lei”, com tensas passagens jazzísticas dando espaço à confortáveis respiros de calmaria melódica.

“Tonto” é a música em que o Macaco Bong se propôs a reproduzir a sensação de tocar sob efeitos etílicos. O resultado são riffs malemolentes deslizando por paredes de violões e um groove meio bêbado prestes a despencar. E apesar do título espinhoso, quase não há dores na épica “Cactus”, com seus dedilhados esperançosos que subliminarmente convidam o ouvinte a resistir e combater os preconceitos persistentes na sociedade.

Com um leve acento de samba, “Caminhada Sagaz” é uma ode ao brasileiro que não desiste nunca, com sua batida sôfrega que prenuncia uma perseguição em alta velocidade (“uma música de fuga”, explica Kayapy). Finalizando o poço de referências de Mondo Verbero, “D’bong na Lagoa” homenageia o mestre Bob Marley como um convite a intermináveis jams ao vivo, devendo se tornar um momento especial das apresentações presenciais que a banda não vê a hora de fazer.

Porque se aos poucos nosso mundo sofrido vai voltando ao seu normal, o Macaco Bong está mais do que pronto para encarar a estrada. Do seu jeito único, Mondo Verbero é o passaporte para esse retorno triunfal. A viagem já começou.

Mondo Verbero já está disponível em todas as plataformas digitais, via ForMusic Records.

Marketing e Promoção no Brasil:
ForMusic
 – info@formusic.com.br

Informações  à imprensa:
Simone Catto – simone@formusic.com.br

69770cookie-checkMacaco Bong: “Mondo Verbero” é um Brasil que o trio sente
Adicionar aos favoritos o Link permanente.
0 0 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments